sexta-feira, 28 de junho de 2013


Crítica Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros / 2013 / Espanha) dir. Pedro Almodóvar
por Lucas Wagner
  Os Amantes Passageiros é um Apertem os Cintos...o Piloto Sumiu! só que gay. Assim como o clássico da comédia besteirol da década de 80, esse novo filme do cineasta Pedro Almodóvar se passa em um avião onde uma falha técnica obriga que a tripulação e os passageiros permaneçam a bordo durante muito mais tempo do que o previsto, o que faz com que todos os personagens comecem a revelar mais e mais suas bizarrices chegando ao extremismo absoluto. Sendo um pouco mais sóbrio do que o filme de David Zucker e companhia, essa comédia de Almodóvar chega a limites insanos com um humor negro concentrado em personagens em sua maioria ou gays ou meio tarados.
   O tom absurdo do longa é ressaltado a todo momento, em todos os detalhes. A direção de arte, assim como o figurino, investe sempre em cores fortes e claras, nos lembrando da artificialidade do que vemos, ao mesmo tempo em que o figurino tembém é divertido ao vestir os comissários de uma forma totalmente afeminada. A fotografia pressiona ainda mais a tecla desse artificialidade ao investir numa superexposição de luzes, tornando o longa ainda mais colorido. Almodóvar se diverte também ao constantemente usar planos inclinados e enquadramentos estranhos, o que confere um tom de instabilidade mais do que adequado ao projeto.
   Abraçando sem reservas um humor mais besteirol, Almodóvar (que também é o roteirista) consegue criar situações engraçadas mesmo em piadas mais sutis (uma raridade aqui) ou nas maiores. Sem medo algum do que seria considerado politicamente incorreto (como é de praxe para o diretor), o cineasta cria momentos como o que vemos um pouco de sêmen na boca de um comissário, ou ainda mostra domínio do humor quando corta do rosto de uma virgem (sexualmente excitada, nesse momento) para uma enorme lanterna. Aliás, o modo como Almodóvar vai mergulhando no humor erótico assume um tom completamente surrealista naquela que é a melhor (e mais engraçada) sequência do filme, quando aparentemente todo mundo na aeronave resolve transar, não mostrando qualquer timidez, transando até mesmo nas poltronas ou nos estreitos corredores entre essas. Nessa sequência, nem pessoas que estão dormindo são poupadas (o que me lembrou outro trabalho do diretor: Fale Com Ela), e vemos até um homem drogar e embebedar constantemente sua noiva, pois essa, quando dormindo (ela é sonâmbula), revela uma sede de sexo insaciável. E não é por acaso que no fim do longa os personagens saem do avião e pisam numa enorme e extensa camada de espuma branca, um simbolismo óbvio, porém divertido.
   Não que seja só no humor erótico que Almodóvar acerte, pois ele consegue criar piadas bem sucedidas em outros âmbitos, satirizando, por exemplo, o uso do Twitter quando um personagem se machuca e logo twitta que está “se esvaindo em sangue”. E, para quem espera sempre algo cult e “alternativo” do diretor, se surpreenderá com piadas envolvendo peidos. Até mesmo estereótipos como o do comissário afeminado e escandaloso são abraçados pelo diretor, que inclui um número musical divertidíssimo envolvendo os comissários, que é bem sucedido por Almodóvar ressaltar a todo momento a bizarrice que é vermos homens dançando daquele jeito, o que é mais engraçado ainda pelas suas formas corporais, que passam do magrelo para o obeso, mas nunca para um corpo típico de dançarino.
   Mas é nesse completo “foda-se” por parte de Almodóvar, fazendo graça com o que quer, não se importando se é ofensivo ou não, ou se a piada é clichê ou não, que faz de Os Amantes Passageiros um longa realmente divertido. Assim, a estrutura do longa se revela toda falha, com o diretor incluindo uma subtrama que não se adequa à narrativa e a quebra bruscamente, mas percebemos que os objetivos de Almodóvar aqui estão longe do sensível e do complexo, e essa quebra não incomoda muito. Dessa forma, nenhum personagem recebe uma profundidade maior, o que é um acerto, visando os objetivos do longa. E o elenco abraça esse descompromisso sem reservas, com atuações eficazes, sendo que quem se destaca é Cecília Roth, em seu monólogo sobre suas atividades sadomasoquistas, quando revela um lado diferente do que conhecíamos da personagem até então.
   Passando longe de ser um grande filme, Os Amantes Passageiros não encontra nem lugar na lista dos melhores da filmografia de Pedro Almodóvar (seu longa anterior, A Pele Que Habito, é infinitamente superior), mas seu descompromisso absoluto é mais do que suficiente para nos fazer rir a todo momento, o que é o seu único e bem sucedido objetivo.

2 comentários:

  1. Fiquei muito surpreso com a ironia do filme, e estava curtindo tudo até os cortes para mostrar e desenvolver personagens fora do avião, acho que o erro do filme foi esse (não focar apenas em um ambiente, o avião, e os alheios por via de telefonemas apenas - o que quebrava o ritmo para mim). Mesmo assim é divertido, bem atuado e bastante crítico, além de óbvio.

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    1. O único erro real do filme msm é essa quebra de ritmo totalmente desnescessária!

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