sábado, 29 de junho de 2013



Crítica O Homem de Aço (Man Of Steel / 2013 / EUA) dir. Zack Snyder

por Lucas Wagner

  Para ser bastante sincero, o superman está bem longe de ser meu herói favorito. Sua invulnerabilidade, força hiper-humana, ao mesmo tempo em que suas crenças exacerbadas em valores morais e éticos, na bondade humana, etc, tornavam, a meu ver, o personagem uma figura unidimensional e artificial, um estereótipo de herói que só busca o bem e que não tem um pingo de complexidade. Pois bem, agora chegamos à esse O Homem de Aço, dirigido Zack Snyder (do excelente Watchmen e dos bacanas 300 e Madrugada dos Mortos) e “abençoado” por Christopher Nolan (produtor e conselheiro do projeto), e o resultado é...é lindo, sinceramente. Um filme forte, que volta às origens do Superman para desenvolver o personagem de forma a torná-lo um herói complexo e admirável que realmente sente o peso do mundo sobre seus ombros.

  O Superman aqui não é uma figura inerentemente boa. Ele é um ser moldado pelas contingências que foram estabelecidas por modelos específicos: seus pais adotivos e seu pai biológico. E é a força com que enxergamos essas figuras que permite que compreendamos porque Clark Kent se torna o herói que acredita na raça humana como acredita, e se dedica a salvá-la. Sua mãe, Martha Kent (Diane Lane), em certo momento, guia o Clark criança enquanto este sofre uma espécie de crise de pânico, e é a doçura de sua voz e a poesia de suas palavras que trazem conforto ao menino, e permite que ele reestabeleça o controle de si mesmo; e como não admirar uma mulher que, diante do lar destruído e da preocupação do filho, diz, sem remorsos, que eram apenas “coisas materiais”? Russell Crowe, como o pai biológico de Kent, Jor-El, nos permite compreender a grandeza desse homem, principalmente no longo início do filme, em Krypton, quando podemos enxergar nele os germes de honra, racionalidade e sabedoria que, mais tarde (quando Kent o conhecesse) seriam tão vitais para permitir a ignição das potencialidades do protagonista. Mas é em Kevin Conster, como Jonathan Kent, que esse O Homem de Aço tem sua maior força, e digo isso pois esse é, claramente, a maior fonte de influência e sabedoria para Clark. Compreendendo a importância que o garoto poderia ter para a humanidade, Jonathan tem a sabedoria de enxergar que os seres humanos não estavam prontos para aceitar a existência de alguém como Clark. Com uma certa rigidez carinhosa, sem buscar muletas na religião, ou qualquer conforto fácil para o filho adotivo, Jonathan guia Clark em momentos sombrios, em que esse quase não consegue controlar-se, e se mostra disposto a se sacrificar para permitir que o filho possa atingir seu objetivo no futuro como um guia, um messias, quando a humanidade estivesse pronta para ele. E Conster, numa performance contida, mas forte, revela, até em pequenos traços de sua entonação de voz, toda a carga emocional de seu personagem, em especial no momento em que revela para Clark sua verdadeira natureza.

  Pois Clark Kent aqui nem sempre foi um super-humano. Com a dificuldade biológica de uma criança de sua espécie para se adaptar à um planeta como a Terra, o menino sofria com o abuso de estímulos sensoriais ultrassensíveis com os quais era bombardeado constantemente. Ainda, como um ser metade humano, o garoto sofria para controlar impulsos violentos, como o de bater em um menino que o incomodava (e o plano detalhe do objeto que Clark segurava enquanto era bulinado é revelador e elegante na economia de informação transmitida). É claro que ele tinha medo, mas a força da direção dada por seus pais adotivos permitiu que esse fosse aceitando seu destino, e esperando pacientemente pelo momento em que deveria assumir o papel que tanto guardou dentro de si. Assim, quando finalmente vê que chegou a hora, o que vemos é um ser maduro e ciente de seu papel, com a coragem que este demanda, mas também com o medo que este exige, formando assim um herói extremamente complexo e trágico, que, devido à sua criação, compreende a magnitude de sua influência, e passa a agir de maneira sábia e racional, em busca da paz para o planeta Terra, realizando o sonho de seus pais de ver um mundo melhor, sonho esse que ele assumiu para si mesmo. E nesse sentido, Henry Cavill deixa de lado qualquer traço de sua medíocre performance no fraco Imortais e confere enorme peso dramático à Clark Kent, deixando evidente a força e estrutura que o papel que o protagonista tem exige, conseguindo ainda mostrar certa paz que ele guarda dentro de si, pela aceitação de seu destino, sem deixar de lado o medo e insegurança que sente.

  Superman é um messias, e Zack Snyder e o roteirista David S. Goyer (que trabalhou em Batman Begins e Blade II) compreendem isso e busca simbolizar esse fato de maneira sutil e elegante, como pelo fato de Clark, quando assume seu papel como o Superman, ter 33 anos (idade com que Jesus Cristo foi crucificado), ou ainda o enquadramento que coloca a figura do protagonista ao lado de uma imagem de Cristo em uma vidraça de Igreja. Desse modo, Jonathan é uma espécie de José, e Martha é Maria, enquanto Jor-El seria Deus-pai. Essa simbologia surge diante do cinismo da humanidade atual, da necessidade de um herói-messias que pudesse guiar essa espécie diante de toda sua infantilidade, ao mesmo tempo em que compreendendo a grandeza de pequenos gestos de amor que fazem dos seres humanos criaturas tão únicas. A infância simples de Clark, numa fazenda no interior dos EUA, permitiu o florescimento dessa compreensão tácita pela beleza interior do ser humano, ao mesmo tempo em que a paisagem rural entra em confronto com a opressão das grandes metrópoles, o que permite ainda que o protagonista vá se apaixonando por esse planeta mesmo não pertencendo a ele (e o modo como Snyder filma essas sequências, remetendo ao trabalho do diretor Terrence Malick, é belíssimo e eficaz).

  Sabendo explorar bem as possibilidades visuais (as baleias no oceano junto com Clark; os animais nativos do planeta de Krypton; a máquina de terraformação; etc), Snyder e S. Goyer mergulham também em questões filosóficas valiosas no contexto contemporâneo, onde fica evidente o valor que a sabedoria, a bondade, o amor e a Ciência (representados por Jor-El) tem sobre a violência e a opressão (representados pelo vilão Zod), enquanto vemos também Krypton morrendo por problemas que podem muito bem acabar com o nosso próprio planeta, como o esgotamento de recursos energéticos (em certo momento, a máquina de terraformação lembra uma estação de extração de petróleo pegando fogo) ou a robotização dos novos membros da população, que nascem com futuros estabelecidos (vemos, como um pequeno exemplo da realidade, o tanto de gente que nasce e já é definido que farão Medicina pela pressão dos pais e das escolas), algo que me lembrou do brilhante livro de Aldus Huxley, Admirável Mundo Novo. Tudo isso, que poderia gerar uma reflexão pessimista acerca da humanidade e seu futuro, acaba trazendo uma reflexão otimista, já que, como eu disse, esse filme busca explorar o que há de melhor no ser humano, apesar dos defeitos dessa espécie, e encontra esperança na sua mudança positiva. E assim é notável que não seja só Superman o grande herói responsável pela salvação do dia, mas diversos humanos que, lutando pelas próprias vidas, pela vida de sua espécie e pelas vidas de seus amados, acabam se unindo quando necessário.

  Snyder foge completamente do seu estilo estabelecido em seus trabalhos anteriores, evitando assim movimentos por demais ousados com sua câmera ou suas famosas câmeras lenta, optando por uma maior sutileza, como o bom uso dos flares em flashbacks da infância de Clark, conseguindo o efeito fantasmagórico de uma memória. Com uma montagem enxuta, o diretor nunca perde tempo e conta sua história alternando flashbacks e a história atual do Superman, o que, se por um lado prejudica a estrutura do longa por impedir que compreendamos passo a passo a formação do herói e, além disso, quebra o ritmo da ação em vários momentos, ainda assim consegue permitir que o filme corra com tranquilidade, não impedindo que compreendamos a profundidade do protagonista e de sua formação, e acaba formando uma espécie de quebra-cabeça que vai se juntando num todo mais complexo que é a personalidade de Clark no decorrer da projeção. E se O Homem de Aço tem seu caráter filosófico, ainda assim assume uma força extremamente épica que toma conta da metade final do filme, sendo eficaz justamente pelos laços que criamos com os personagens.

  Tudo o que poderia dar errado nas mãos de um maluco doente como Michael Bay (diretor da fecal trilogia Transformers) vira ouro nas mãos de Zack Snyder, que nos liga emocionalmente com toda a ação que virá. E o que vemos é mais porradaria do que estamos acostumados no cinema. Funcionando como um enorme clímax, a metade final do filme vai chegando a limites extremos, que dá certo muito pelo fato de os personagens principais demonstrarem vulnerabilidade. Sim, até mesmo Superman. Toda a estrutura da história cria um contexto biológico fascinante para os kryptonianos, permitindo que compreendamos como seu organismo funciona na Terra; mais importante ainda, como o organismo do Superman (um ser meio humano, meio kryptoniano) funciona em relação à tecnologias estranhas à seu sistema. Isso tudo cria o contexto para cenas de ação mais cheias de tensão. Cenas de ação que duvido muito que serão superadas por qualquer outro longa esse ano, já que, bem montadas e enérgicas, exploram com habilidade absoluta todos os poderes dos envolvidos, os ambientes, as tecnologias, e muito mais, numa escala extremamente épica, poderosa e brutal, de Apocalipse mesmo, que exige uma força absurda de seu protagonista.
 
  Com um design de produção fabuloso, a equipe técnica de O Homem de Aço cria cenários impecáveis e criativos, como o lago com as crianças sendo gestadas, ou toda Krypton em si mesmo, além dos visuais das naves e dos figurinos da equipe de Zod, que surgem sempre inventivos. Os efeitos especiais conseguem superar até mesmo os de Além da Escuridão – Star Trek, tanto em escala quanto em qualidade, já que mesmo tão fantasiosos, surgem palpáveis e poderosos, transmitindo toda a oponência exigida. A trilha sonora de Hans Zimmer já surge como uma obra de arte à parte, conseguindo ser um trabalho tanto lindo isoladamente quanto perfeito dentro do filme, trazendo tons fortes como os de seu trabalho na trilogia Batman e elementos mais melancólicos e sensíveis, não buscando uma música tema, mas surgindo como que para preencher ainda mais a narrativa.

  E se tudo isso é lindo, O Homem de Aço não seria grande coisa como ação sem um grande vilão, e Zod é personificado por Michael Shannon com uma entrega tal que só um ator como ele (um dos melhores da atualidade, para ser honesto) poderia fazer. O que temos então é um vilão que realmente acredita no que faz, cuja convicção traz uma certa honra militar que nos obriga a, em certos momentos, até apreciar sua força. Além dele, a maravilhosa Amy Adams (outra que considero uma das melhores profissionais de sua área atualmente) cria uma Lois Lane de personalidade forte e tridimensional, que fica representada em atos mais simples e juvenis (como beber uísque puro sem nem piscar) como em momentos mais complexos que demonstram a força de vontade em desvendar segredos e expô-los no jornal em que trabalha, como uma verdadeira jornalista de qualidade deve fazer. Enérgica e sempre ativa, a Lane de Adams ganha uma importância enorme dentro da ação do filme, não sendo uma “mocinha em apuros”, mas uma mulher independente que sabe se cuidar, e não precisa de homem nenhum para salvá-la. Assim, a dinâmica que estabelece com o Superman é fascinante e vai se desenvolvendo com calma, permitindo que, quando surja o contexto amoroso entre os dois, este não seja nada estranho, mas sim perfeitamente natural.

  E assim O Homem de Aço se estabelece como já um dos melhores filmes de 2013, sendo inteligente o suficiente para explorar a complexidade da formação do herói protagonista e todas as questões filosóficas que um bom trabalho de ficção pode trazer, sem deixar de lado toda a intensidade que um longa como esse exige. Um filmaço.


3 comentários:

  1. Queria muito ter visto o filme que você viu, e olha que assisti duas vezes. Concordo com você que esse Superman é bem desenvolvido como personagem, assim como os coadjuvantes, mas os problemas de estrutura narrativa e o roteiro raso, incomodaram-me bastante. Adorei as lutas, o som do filme e a escolha do elenco. Você não viu problemas no filme?

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    1. Vc então está junto com a opnião da maioria kk Tipo, enxerguei alguns problemas no filme e confesso q n me incomodaram. Tb assisti duas vezes. Sou um solitário da defesa desse filme rs

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  2. Ouvi uns 10 podcasts sobre o filme, todo mundo "encima do muro". Eu não gostei do filme, e gostei de algumas coisas do filme... kkk

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