domingo, 27 de abril de 2014


Análise:

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho / 2014 / Brasil) dir. Daniel Ribeiro

por Lucas Wagner

No início desse Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, a personagem Giovana (Tess Amorin) lamenta a falta de um “grande drama” em sua vida. Porém, a ausência desses grandes dramas é justamente o que enriquece a obra. Não que não existam aqui sentimentos avalassadores, paixões, mágoas, dores e alegrias, mas o filme compreende esses elementos dentro de situações prosaicas do cotidiano, algo que o recente Entre Nós, ao insistir em um drama bem mais fora do comum, não conseguiu. Essa abordagem e esse tipo de olhar ainda permitem que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tenha uma visão madura e doce sobre a homossexualidade de seu protagonista.   

O roteiro do próprio Daniel Ribeiro conta a história de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego que sempre pode contar com a ajudar de Giovana, sua melhor amiga. No entanto, a amizade que passa a desenvolver com Gabriel (Fabio Audi) começa a despertar em Leonardo sentimentos românticos que até então não tinham um destinatário específico.

Todos os personagens da obra se comportam como pessoas absolutamente normais que enfrentam problemas muito comuns, o que já desperta a simpatia do espectador. O modo como lidam com seus sentimentos, tantas vezes de forma destrambelhada ou causando desconforto a outrem, são perfeitamente naturais e refletem a clara complexidade do comportamento humano, que não raro age de forma desconexa e perturbadora para si mesmo. Os dramas vividos pelos adolescentes aqui se referem às mágoas de se cair numa friendzone, ciúmes, insegurança de expressar seus próprios sentimentos, chacotas de colegas, etc, tudo tratado de uma forma que chega a ser “bonitinha”, e quase não dá para conter um sorriso ao ver um personagem fingir que estava bêbado para evitar uma conversa que deseja e teme. Além disso, o comportamento dos pais de Leonardo, fonte de tanta amargura para o garoto, não deixa de fazer sentido, embora fique evidente a diferença de comportamento do pai e da mãe, mas sempre ficando claro que o que os dois querem é o bem do filho, mesmo que de forma distinta do que este mesmo vê como seu bem.

Pois Leonardo já está cansado de ver sua cegueira como uma justificativa para mantê-lo afastado do que seria a vida normal de um garoto de sua idade. Com a rebeldia comum de um adolescente, ele passa a questionar as ações dos pais, ou mesmo de seus amigos que lhe querem bem. Essa rebeldia não se expressa apenas em ações mais explosivas, mas muitas vezes em gestos sutis como ao insistir em balançar-se na cadeira mesmo quando os pais lhe chamaram a atenção para isso várias vezes em menos de um minuto, ou ainda quando insiste em abrir a fechadura de seu portão, impedindo Giovana de realizar a tarefa para ele. No entanto, o que é o mais bacana é que Leonardo não é nenhum ignorante quanto à sua condição, apesar de às vezes tentar passar a impressão de que é. Assim, em certos momentos é comovente vê-lo demonstrando insegurança, como ao perguntar, com a voz baixa, se alguém como ele pode fazer intercâmbio. E também não é por ser rebelde que ele vai se comportar como um bruto, mas é quase sempre muito amável.

Ser cego não anula o fato de Leonardo ser um adolescente, e assim ele enfrenta várias inseguranças típicas de sua idade, muito, por exemplo, em relação à sexualidade. Ele tenta mascarar seus anseios quanto a isso, além de seus sentimentos quanto a nunca ter beijado na boca, mas, em momentos mais intimistas, percebemos como essas questões lhe permeiam os pensamentos, como no momento em que, no banho, pratica um beijo. O aparecimento de Gabriel e a amizade que criam desenvolve mais esse desejo de estar com alguém, de viver uma paixão. E esses sentimentos surgem de forma bastante gradual, sendo esse um grande ponto para o roteiro.

Ponto maior ainda é o modo como lida com a homossexualidade. Quando escrevi sobre Azul é a Cor Mais Quente comentei sobre como o filme era sobre a experiência de amar e ser amado, que o sexo do nosso objeto de desejo não era o mais importante ali. No entanto, o longa citado focava muito em ser um estudo psicológico de Adéle, uma moça heterossexual quase adulta que então se descobre homossexual. É mais intrincado do que o que ocorre com Leonardo, um garoto que não teve experiência com a sexualidade e, como nasceu cego, a aparência do Outro é o que menos importa. Assim, em nenhum momento surge algum grande dilema quanto ao fato de Gabriel ser homem. Leonardo está apaixonado por quem ele é, pelos sentimentos que surgiram nos momentos prosaicos que passaram juntos, pelos toques delicados em sua mão para guiá-la a um entendimento que seus olhos não lhe permitem, ou toques ainda em seu rosto ou corpo, demonstrando um carinho que é reconfortante mas também aterrorizante para o protagonista. As percepções dos outros quanto ao que está surgindo entre os dois também nunca é ignorante, e enquanto a avó de Leonardo dá um sorrizinho ao perceber algo no ar, a mãe dele também não tenta deixar o filho mais desconfortável ainda quando os pega quase de mão dadas. Os próprios colegas de sala que insistem em bullinar Leonardo pela sua cegueira e necessidade de ajuda não são ignorantes nesse ponto, já que a zoeira está concentrada em falar que alguém é namorado (a) do protagonista, e não se é um garoto ou garota, como a bela e divertida cena final deixa perfeitamente claro.

Na direção, Daniel Ribeiro demonstra equilíbrio ao nunca pesar a mão no melodramático, mas também não evitando momentos mais intimistas. Nesse ponto, a belíssima trilha sonora incidental é usada com parcimônia para ressaltar a delicadeza de certos momentos, mas nunca para criá-los. Com poucos momentos visualmente marcantes, o diretor consegue extrair certa beleza romântica de alguns elementos, como na dança entre Gabriel e Leonardo, momento este em que a luz do sol de fim de tarde entra pela janela e os ilumina. Usando uma profundidade de campo quase sempre reduzida para simular um pouco da dificuldade de Leonardo para perceber o mundo, Ribeiro ainda revela-se um diretor atento a detalhes específicos da atuação de seu elenco que muito revelam sobre os sentimentos em jogo por ali.

Para isso, então, seu elenco faz um ótimo trabalho, e Guilherme Lobo interpreta Leonardo e toda sua postura altiva mas também insegura com delicadeza o suficiente (embora o ator por vezes recite suas falas de forma muito mecânica). Fabio Audi faz de Gabriel um jovem complexo e gentil, cujos sentimentos são para ele mesmo uma fonte de confusão, como fica claro na comovente cena do chuveiro. Tess Amorin interpreta Giovana como uma garota adorável que usa a raiva como forma de esconder todas as inseguranças que carrega. Todo o restante do elenco faz com muito sucesso que o filme nunca caia no maniqueísmo, e até mesmo personagens que facilmente cairiam no desgosto do espectador, como a “piriguete” Karina ou os bullinadores de Leonardo, tem momentos que despertam nossa compaixão.

Eficaz também no bom humor, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme adorável e bastante honesto, apostando na delicadeza dos seus personagens e seus sentimentos para conquistar o espectador, acertando no processo.

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