quarta-feira, 14 de agosto de 2013



Crítica Tese Sobre Um Homicídio (Tesis Sobre Um Homicidio / 2013 / Argentina, Espanha) dir. Hérnan Goldfrid

por Lucas Wagner

  Roberto (Ricardo Darín) é um advogado aposentado e atual professor com problemas pessoais que claramente o afetam psicologicamente. Quando um assassinato ocorre na universidade onde trabalha, ele começa a desconfiar de um aluno seu, Ruiz, e, com poucas provas, começa a tentar provar a culpa do rapaz, enquanto ninguém parece acreditar no professor. A partir disso, Tese Sobre Um Homicídio busca desenvolver uma trama extremamente ambígua, cujo maior acerto é justamente sempre deixar o espectador na dúvida sobre o que está vendo, ou seja, sobre a razão ou não das conclusões de Roberto. Mas, e me perdoem pela piadinha infame, isso acaba funcionando mesmo é em tese, já que o roteiro de Patricio Vega não parece capaz de explorar com propriedade as possibilidades de uma trama e um protagonista tão curiosos, tornando a obra inevitavelmente irregular. Apesar disso, o filme possui alguns pontos positivos que não o deixam ser totalmente destruído.

  A fotografia de Rolo Pulpeiro faz um excelente trabalho ao, através de grande uso de sombras e cores escuras, ambientar Tese Sobre Um Homicídio numa atmosfera sombria e ameaçadora, algo que o diretor Hérnan Goldfrid faz bem também ao abrir o longa com um flashforward que mostra o bonito apartamento de Roberto todo bagunçado e revirado, já nos preparando para a desordem que o mundo daquele personagem sofrerá. Além disso, Pulpeiro e Goldfrid conseguem criar certas tomadas esteticamente curiosas, como aquela em que se passa em uma boate e, nesse momento, por cima dos personagens está acontecendo um ato artístico particularmente belo. Corroborando na atmosfera, Sergio Moure cria uma trilha sonora constantemente melancólica, não deixando espaço para leveza no longa. O design de produção também se revela um acerto na medida em que constrói ambientes que transmitem certas emoções específicas para o espectador, como o enorme apartamento de Roberto, mas que surge vazio em sua amplitude, mesmo com tantos objetos intelectuais, algo que contrasta com o apartamento da irmã da vítima, que surge mais apertado, mas também mais aconchegante (e foi inteligente por parte do diretor Goldfrid ter, numa boa misé-én-scene, colocado a moça deitada aconchegada no sofá, com coberta e tudo); mais curioso ainda é ver como o apartamento cinzento e moderno de Ruiz pode ser mesmo como o de um verdadeiro psicopata (limpo, organizado) mas também transmite a neutralidade ideal que corrobora para a incerteza buscada pelo roteiro.

  Com tudo isso, Goldfrid tem as ferramentas para trabalhar o suspense com propriedade, algo que ele faz bem ao estabelecer um ritmo adequado à obra, mantendo a tensão sobre controle. Busca também, acertadamente, colocar-nos sob uma perspectiva subjetiva de Roberto quando se coloca no lugar da cena do crime (e assim sua imaginação pode assumir o ponto de vista do assassino ou da vítima) ou ainda quando esse se encontra angustiado e o cineasta utiliza-se (até mesmo com certo exagero, infelizmente) de babylens para distorcer a imagem que estamos vendo, traduzindo o estado emocional do personagem de forma visual. Ainda, é bacana o momento em que o cineasta usa um travelling circular em 360º para mostrar Roberto em vários lugares explorando insanamente um ambiente, novamente traduzindo as emoções do personagem de forma eficaz.

  E é mesmo em sua trama que Tese Sobre Um Homicídio aposta a maior parte de sua ficha, o que revela até mesmo inteligência do roteirista Patricio Vega por perceber as possibilidades temáticas do projeto. Assim, várias questões são levantadas e relativamente bem exploradas: até que ponto a atenção aos detalhes por parte de Roberto foi fria o suficiente? Será que ele não enxerga determinados detalhes simplesmente porque escolheu (inconscientemente) assim o fazer? Ainda, mesmo que em certos momentos as evidências levantadas pelo protagonista podem parecer muito viajadas, porque parecem se ligar ao assassinato como fazem? Apenas por pura coincidência? Pode muito bem ser (e Vega explora isso bem) que consigamos enxergar as coisas do modo com enxergamos simplesmente porque estamos partindo do ponto de vista subjetivo do protagonista, que é, vale lembrar, um sujeito com diversos problemas pessoais, depressivo e levemente alcoólatra. Assim, o mais fascinante do longa é justamente perceber que essas ambiguidades e incertezas que singularizam a obra, e cria assim um thriller instigante que teria tudo para ser um filmaço, não fosse pelo fato de que, salvo os elogios que acabei de tecer à Vega, ele não sabe como convencer o espectador sobre o que vemos e ainda trabalha porcamente um personagem tão complexo como Roberto.

  Pode ser que esses erros estejam no romance que originou o filme (que não li), mas é um fato que Tese Sobre Um Homicídio carece de verossimilhança suficiente para convencer-nos das pistas e deduções de Roberto. Por exemplo: nenhum espectador em sã consciência aceitará o modo como ele inicia sua busca (baseado na ligação de uma corrente da vítima com uma fala de Ruiz). Isso é apenas um pequeno exemplo, já que se fosse citar outros, poderia acabar entregando algum spoiler (não que não seja difícil enxergar os absurdos de suas deduções durante a projeção). Sem contar que muitos de seus argumentos não são completados durante os 106 minutos de duração, se tornando sugestões vazias que prejudicam o longa em retrospectiva (afinal, Ruiz tinha ou não problemas com a mãe? Ora, Roberto tinha maneiras de saber disso!). E é inegável que existam problemas mais graves ainda na construção do longa, principalmente por não hesitar em usar recursos pobres e inverossímeis, como a ação de Roberto para descobrir uma informação (sério que ele precisava gastar um dinheirão para conferir o preço de certos objetos em conjunto? Ele não poderia só ter checado com um vendedor?) e coincidências extremamente toscas para criar uma tensãozinha pobre*.

  Pior ainda talvez seja perceber que Roberto é uma figura cujas motivações são sempre obscuras ao espectador. Por que diabos ele se dedica tanto à esse caso? Poderíamos forçar a barra e falar que é devido à uma busca de equilíbrio em sua própria vida (algo que poderia ser simbolizado pela sua mania de sempre tentar equilibrar uma moeda) mas, sinceramente, essa hipótese me parece muito forçada e uma tentativa tola de minha parte para salvar o filme. Aliás, o personagem é tão mal construído que faltam informações valiosíssimas para compreendermos sua jornada, como, apenas para citar alguns exemplos: o que tinha acontecido de tão terrível no outro caso que ele atendeu e deu errado? Quais eram seus problemas com a ex-esposa? Porque se divorciaram?

  E se isso causa tanto grilo talvez seja porque exista, em Roberto, um personagem extremamente complexo e fascinante, algo que o extraordinário ator Ricardo Darín parece enxergar e abraçar, numa performance soberba que explora maravilhosamente bem uma figura tão mal construída. Vivendo Roberto com a naturalidade com que assume todos os seus papéis, Darín percebe que por trás da arrogância do professor há um homem deprimido, solitário e totalmente fatigado (observem o detalhe espetacular e sutil no rosto do ator quando recebe, de seu aluno, uma resposta totalmente previsível e tola para uma pergunta que faz à classe, evidenciando talvez o tanto de vezes que foi obrigado a escutar algo como aquilo**). Darín também abraça a carência de Roberto, que inevitavelmente vai entrar em choque com sua máscara de homem sério e profissional, e o ator demonstra toda a vergonha calada dele nesses momentos sutis (observem quando uma moça rejeita um beijo seu). Assim, esse fascinante ator consegue quase fazer de Tese Sobre Um Homicídio um projeto de estudo de personagem, extraindo camadas dele que não existiam no roteiro. Mas, como comentei antes, o personagem é muito mal escrito para um ator (mesmo um Ricardo Darín) dar conta totalmente de levantá-lo.

  Severamente prejudicado pela falta de atenção e incompreensão de si mesmo pelo seu próprio delírio de grandeza, Tese Sobre Um Homicídio acaba tendo pontos positivos demais para ser chamado de “filme ruim”. Poderia ter se tornado um longa excepcional e extremamente complexo nas mãos de alguém que manejasse melhor o material que tem em mãos. Enfim, acabou que ficamos uma obra mediana.

*SPOILER: Me refiro à cena em que a irmã da vítima descobre as luvas e o formol na casa de Roberto.

** “-Qual a principal ferramenta do juiz?” Roberto; “-Os fatos!” Aluno.


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