quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Crítica filme "Holy Motors" (Holy Motors / 2012 / França) dir. Leos Carax

por Lucas Wagner


  Talvez o melhor tipo de filme que tenha seja aquele que ainda te deixa pensando nele durante muito tempo, descobrindo coisas novas e empolgantes que enriquecem a visão que você teve no momento em que assistiu. Filmes assim podem não ser 100% compreensíveis quando o vemos uma primeira vez, e ainda podem ter elementos que continuam misteriosos até mesmo na décima vez, mas eles são fascinantes por nos envolver tanto emocionalmente quanto intelectualmente, tornando o exercício de estudar o longa um enorme prazer. E Holy Motors, de Leos Carax é um exemplo sensacional. Um filme intrigante, bizarro e envolvente que tem um poder quase magnético que nos leva a desejar desvendar seus segredos.

  O roteiro do próprio Carax acompanha Oscar (Denis Lavant), um ator que, num percurso de 24 horas, deve interpretar diversos personagens diferentes, percorrendo a cidade em sua limusine branca (perceberam ai já uma ligação com Cosmópolis?). Durante essas 24 horas, Oscar vai se transformar em diversos sujeitos diferentes, se passando por assassinos, doentes mentais, idosos, etc.

  Acima de tudo, Holy Motors é uma reflexão sobre o a profissão de um ator. Oscar é um sujeito que se entrega de forma desgastante aos papéis que representa, mudando de personalidade muitas vezes em um espaço curto de tempo. Mas, fora a atuação, Oscar é uma pessoa introspectiva e com uma séria tendência para o alcoolismo, além de parecer observar com tristeza os rumos que a Arte do Cinema vem tomando nos dias de hoje. Sua vida parece ser uma mistura de diversas outras, onde fica difícil traçar uma personalidade própria. Assim, foi genial que Carax tenha desenvolvido seu roteiro com o ator atravessando a cidade dentro de uma limusine (serviria se fosse outro carro qualquer também), numa representação perfeita da transitoriedade da vida de um ator, que deve o tempo todo se entregar a ser uma pessoa diferente, “entrando em corpos” diferentes, de uma forma extremamente desgastante, a ponto de ir deixando que seu “verdadeiro eu” seja engolido, ficando por baixo de diversas outras camadas. Assim, é lindo o momento em que Oscar (que, por sinal, é um nome genial, já que se refere a uma das maiores ambições de um ator) vai representar uma cena em que é um senhor moribundo, e ai Carax mistura ficção com realidade ao colocá-lo confundindo, como que num delírio, as diversas personalidades que assumiu naquele mesmo dia, numa clara confusão de quem ele realmente é. E como não ficar impressionado com a inteligência de Carax no momento em que Oscar vê uma determinada pessoa (importante para ele) morta, e dá um grito, enquanto corre e mergulha dentro da limusine, como que guardando toda aquela emoção forte para ser usada em uma atuação? Lindo isso.

  Nesse sentido, Carax é feliz demais ao contar com um ator tão genial quanto Denis Lavant, que entrega uma performance impecável à Oscar. Sempre com uma fisionomia séria e cansada, Lavant consegue pular com perfeição para as diversas figuras que deve interpretar, sempre conferindo características novas e empolgantes, como a voz grossa e fria do assassino, a loucura e “hiperatividade” de Merde, ou a corcunda da velha senhora. Mais ainda, ele é brilhante ao retratar o verdadeiro Oscar como uma figura mais sem graça, tristonha, meio que perdido nos rumos de sua vida. Sempre com uma respiração cansada, Oscar é um sujeito que parece realizar o trabalho mecanicamente, mas sem nunca saber quem realmente é (assim como o personagem de Pattinson em Cosmópolis).

  Mas há camadas ainda mais profundas em Holy Motors que valem a pena explorar. Não consegui conter a sensação de que talvez as metáforas tão cuidadosamente estruturadas por Carax não se referem-se apenas ao trabalho de ator, mas talvez à própria humanidade como um todo. Vivemos em um mundo onde o tempo é sempre curto, sempre estamos atrasados para um compromisso novo, sem poder parar para relaxar, refletir e realmente aproveitar a vida. A relógio é rei nesse mundo, e vivemos para trabalhar, e não trabalhamos para viver. Pensei nisso pelo fato de Carax ter colocado Oscar basicamente como um homem de negócios, se referindo aos seus trabalhos como ator como “encontros” ou “reuniões”; ele sempre tem uma pasta à mão para olhar e obter detalhes precisos sobre seus serviços. E é interessante que Carax possa levantar um questionamento como que talvez todos nós sejamos atores, assumindo diferentes personalidades no nosso dia a dia dependendo do ambiente e de com quem estamos. Colocamos diversas máscaras, escondendo nós mesmos do mundo exterior, com medo de transmitir uma imagem ruim, desagradável, mas sempre atuando para, de acordo com cada pessoa diferente, conseguir os resultados que esperamos, nem que esses sejam apenas que possamos pensar que essa pessoa gostou de nós. Vivemos em uma época em que o importante é transmitir uma mensagem. No próprio facebook, quando postamos alguma coisa, ou pelo menos quando curtimos algo, estamos tentando mandar uma mensagem para as outras pessoas; pintar um auto-retrato nosso. Assim, é fascinante que em certo momento, enquanto caminha por um cemitério como um de seus papéis, Oscar passa por diversas lápides onde, ao invés de estar escrito palavras de consolo e gratidão, está escrito: “Visite meu site”. Até na morte estamos atuando para conseguir deixar determinada impressão – que seria alcançada ao investigar os tais sites - nesse tempo que passamos aqui (e o escrito na lápide também funciona como uma observação do diretor quanto à nossa necessidade de atenção). O perigoso disso tudo é que a gente pode acabar ficando como Oscar, sem saber exatamente quem somos, já que nos escondemos sob tantas personalidades diferentes que entramos numa tremenda crise de identidade. (Lembro ainda que, em determinado momento, uma personagem sai de um carro e, sem motivo aparente, coloca uma máscara, numa clara representação do que acabei de dizer).

  Ainda, o diretor nos leva a pensar em como estamos sempre desligados do mundo real, anestesiados por uma realidade transmitida pela televisão, sem ter a decência de olhar a beleza do mundo ao nosso redor. Isso fica claro no momento em que a chofer de Oscar diz para ele ver como Paris está bonita de noite e, ao invés de olhar pela janela, ele prefere olhar por uma televisão que filma o lado de fora do carro. Ainda, a questão da anestesia do real fica brilhantemente demonstrada no momento em que um fotógrafo nem se assusta com o fato de uma pessoa ter comido os dedos de outra, mas fica correndo atrás dessa pessoa para conseguir uma boa imagem, e não para oferecer ajuda.

  Mas Carax é capaz de ir até mais fundo em seu roteiro fenomenal, e entrega uma sequência inesquecível em que vemos Oscar e uma antiga paixão (também atriz) andando por dentro de um prédio antigo, que um dia foi importante para eles. Subvertendo basicamente tudo o que estávamos vendo até então, Carax nos entrega um número musical lindíssimo que ainda serve para aumentar a atmosfera nostálgica desse momento. Ainda, a letra da canção e o que estávamos acompanhando da conversa dos dois se refere a uma temática fascinante: o passado. Ambos questionam que rumo suas vidas teriam tomado se tivessem feito escolhas diferentes, e se essas escolhas teriam mudado muita coisa no fim das contas. Não há como não apreciar a sensibilidade com que Carax trabalha essa temática na letra da canção, chamada “Who Were We?”: “Quem nós éramos? Quem nós éramos? Quando fomos quem fomos?”. De qualquer modo, não importa o que façamos, no futuro nos questionaremos se realmente deveríamos ter feito de determinada forma, e o que sobrará sempre será um resquício de nostalgia, que pregará em nós como uma tatuagem.

  Como se tudo isso não bastasse para que Holy Motors já fosse uma obra-prima de valor inestimável, Carax ainda transforma seu filme em uma reflexão sobre a própria condição deplorável do Cinema de hoje em dia. Logo em uma das primeiras cenas vemos uma platéia dormindo em uma sala de cinema, completamente desinteressada pelo que se passa na tela. Ainda, o diálogo entre Oscar e um determinado outro sujeito, na limusine, funciona como uma reflexão triste sobre a basicamente substituição da película pelo digital (e, por mais ironia que seja, o cinema em que eu estava projetou o filme digitalmente). Mais ainda, Carax parece encarar a enorme artificialidade que é o Cinema, o que fica lindamente ilustrado em diversos momentos, sendo o meu favorito aquele em que Oscar interpreta uma personagem em um filme que se passa todo em tela verde, e ele deve usar uma roupa de captura de movimentos, e chega até, nessa mesma cena, à uma simulação de sexo com uma mulher também com uma dessas roupas: essa simulação surge lindíssima e trágica, pelo ato não consumado devido às roupas, mas traduzida em uma imagem num computador como se fossem dois monstros transando.

  Não que o diretor olhe o Cinema apenas com olhos ruins. É claro que não. Ele insere diversas homenagens à clássicos franceses e ainda parece enxergar o Cinema como um mundo de sonhos, como fica claro na primeira cena do filme, quando vemos o próprio Carax em um quarto, que parece perto de um aeroporto, embora ouçamos barulho de um porto, e ele caminha até uma porta (coberta por um cenário de floresta) e insere uma chave, entrando assim em uma sala de cinema, que surge como um ambiente surreal, com bebês nus andando para lá e para cá, e até animais. E (SPOILER, continuem no próximo parágrafo) é fascinante que a chave que vemos nas mãos do diretor seja a mesma que é entregue a Oscar para voltar à sua família, como se ele estivesse voltando para a realidade. E o fato de sua mulher ser uma macaca, e seu filho também, estabelece uma simbologia fascinante com seu gosto por florestas (que fica claro em uma determinada conversa dele com a chofer) e pelo próprio cenário de floresta pelo qual Carax passa no início do longa; além disso, essa história dos macacos pode levar a um questionamento ainda mais fascinante sobre o que é realidade para cada um de nós.

  Holy Motors é uma obra-prima maravilhosa e extremamente curiosa. É um daqueles filmes que, a cada visita que fazemos, desdobra-se em mais alguns segredos fascinantes e, quanto mais maduros ficamos, mais somos capazes de compreendê-los. Desse modo, esse novo filme de Carax já tem o necessário para ser um grande clássico no futuro. Ele merece, isso é um fato.

Nota: 10.0/10.0

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