sábado, 9 de fevereiro de 2013



Crítica filme "Depois de Lúcia" (Despúes de Lucía / 2012 / Méxivo, França) dir. Michel Franco

por Lucas Wagner


  Alejandra é uma adolescente comum, que adora sair com os amigos, estuda e de vez em quando puxa um baseado. Sua mãe morreu em um acidente de carro, o que levou seu pai à um comportamento mais introspectivo, depressivo. Para mudar de ares, eles se mudam para outra cidade, e Alejandra passa a estudar em uma nova escola, onde faz novos amigos. Numa noite, depois de beber muito, ela e seu amigo José transam, e ele filma tudo, com ela sabendo, mas sem se importar. Esse vídeo vaza na internet, e Alejandra vai sendo cada vez mais reprimida e agredida, a ponto de quase explodir.

  Vemos esse tipo de coisa até que com certa frequência na mídia ou em meios acadêmicos, e sempre manifestamos desgosto e repugnância. Mas é certo que o impacto que esses meios traduzem para questões como essa é bem menor do que o impacto que o Cinema pode trazer. Como já disse o filósofo Julio Cabrera, o Cinema atinge o espectador com verdades até mesmo comuns só que com uma força que um livro de sociologia ou psicologia nunca seria capaz de trazer. Te atinge no estômago. E esse talvez seja o maior mérito desse Depois de Lúcia, do mexicano Michel Franco, que enxerga o bullying e sua força destrutiva com crueza e brutalidade, ainda enxergando a ambivalência do adolescente nesse processo.

  Franco parece querer estabelecer uma atmosfera de normalidade durante a maior parte do tempo, enxergando momentos prosaicos na vida dos seus personagens, de modo até mesmo para desenvolver o universo em que estes vivem. Assim, vemos diversas cenas em que Alejandra e seus amigos jogam conversa fora, contam piadas, e em outra vemos a protagonista com seu pai assistindo um filme no computador logo depois de comerem pizza. Franco ainda acerta na primeira cena do longa, no longo plano que acompanha o pai de Alejandra tirando o carro do mecânico, até que do nada para, tira as chaves, e sai do carro, deixando-o no meio da rua. A meu ver, embora recebamos uma explicação do porque disse posteriormente, Franco procurou nos acostumar com uma cena normal do dia a dia (uma pessoa dirigindo um carro) para logo depois arrebatar-nos com algo tão estranho quanto o que acontece logo em seguida; o que parece ilustrar com perfeição o próprio caminho que a narrativa segue ao mergulhar a vida normal de Alejandra na tortura do bullying. No entanto, é meio broxante que Franco, assim como Kiarostami fez em seu ótimo Um Alguém Apaixonado, pareça cozinhar seu filme em fogo baixo, num ritmo extremamente parado, sem quase nunca mover a câmera ou arriscar um plano mais fechado, o que acaba tornando o longa um pouco maçante, já que tal estilo não encontra qualquer propósito narrativo. Qual, por exemplo, é o sentido do diretor demorar tanto tempo em planos como o final, quando o pai volta para terra firme com uma lancha? Mas acaba que, no fim, esse problema não incomoda muito.

  Mais interessante é como Franco vai desenvolvendo Alejandra e seu pai. Se o pai vai se afundando numa sufocada depressão depois da morte da mulher, algo que o impede de pelo menos suportar a presença de outras pessoas vivendo seu cotidiano normalmente (como fica belamente ilustrado no momento em que pede demissão de seu serviço simplesmente porque estava ouvindo seus funcionários conversarem casualmente, o que o irritou), Alejandra já parece mais conformada, e vive a vida normalmente, mesmo que ainda sofra pela mãe, como podemos perceber quando ela afasta o assunto da mãe quando conversa com as amigas. Esse modo de trabalhar a protagonista, com seu sofrimento calado, sem incomodar os outros, se revela eficaz para que Franco possa garantir ainda mais impacto à tortura que passará a seguir a personagem. Quando começa a sofrer bullying, a protagonista não parece afundar de uma vez no desespero, mas fica mais na dela, meio que torcendo para que aquilo acabe logo, se desesperando silenciosamente quanto mais a tortura aumenta. E como qualquer adolescente (ainda mais uma garota) Alejandra não se abre para o pai (que, sofrendo com seus próprios problemas, parece incapaz de enxergar a filha direito) e nem com qualquer outro adulto.

  Mais curioso, porém, é o trabalho de figurino. Dá para enxergar que todos os adolescentes, ou adultos, usam cores mais escuras, sombrias, e só Alejandra, a que mais sofre que, paradoxalmente, usa as cores mais felizes ao longo do filme. Acredito que Franco traçou essa ideia como forma de ilustrar a protagonista como elemento inocente, claro, num mundo sombrio e ameaçador. E é fascinante que, mais pro terceiro ato, Alejandra passa a usar cores mais sombrias, representando sua dor e perda da inocência.

  O mais interessante, porém, desse Depois de Lúcia, é o modo como Franco explora a adolescência. É muito provável que aqueles jovens não sejam exatamente pessoais ruins, mesmo tendo comportamentos deploráveis, mas que sejam simplesmente imaturos e não saibam a extrema dor que causam à colega. Não é atoa que se desesperam quando percebem que podem ter feito algo terrível, que trará consequências irremediáveis para o resto da vida. A adolescência é a fase mais estranha da vida, onde nada faz muito sentido, algo que fica bem evidenciado por Franco quando, numa festa, um casal começa a se pegar de uma maneira extremamente explícita, quase transando: nesse momento, Franco coloca o casal no ponto de fuga esquerdo da tela, para chamar menos a atenção. A questão é que, se através de um vídeo de Alejandra transando todo mundo começou a torturá-la, por que quando uma transa aconteceu quase que na frente deles ninguém notou? E está ai uma das muitas contradições presentes na adolescência: por que algo em vídeo, distanciado, pareceu ter tanto impacto a mais do que algo ao vivo? Por que certas coisas polêmicas causam tanto choque e outras não?

  E, se Depois de Lúcia não é uma obra-prima, e nem seja tão genial quanto parece achar (o filme acaba sendo bem presunçoso), Michel Franco merece todos os aplausos do mundo por um plano em especial, quando vários adolescentes (inclusive Alejandra) entram em um mar turbulento, de noite. Enquanto todos brincam e se divertem, sem se importar com as fortes ondas, Alejandra vai se deixando arrastar, sem se importar ou conseguir tomar alguma atitude; esse plano é magistral pelo seu valor simbólico: a adolescência é uma época conturbada, turbulenta (o mar), mas que a maioria não encontra muita dificuldade, já que estão sempre se divertindo com seus amigos, numa “eterna” farra; mas para alguns a turbulência do período da adolescência é muito maior, já que estão sozinhos, e são inevitavelmente engolidos pelos problemas que os rodeiam, sem ter caminho de volta, e tendo toda sua vida comprometida.

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