domingo, 11 de janeiro de 2015



Análise:

Whiplash – Em Busca da Perfeição (Whiplash / 2014 / EUA) dir. Damien Chazelle

por Lucas Wagner

“Não existe termo mais prejudicial na língua inglesa do que ‘bom trabalho’”

Se aqueles grandes gênios da Humanidade, seja na Arte ou na Ciência, tivessem se contentado com feedbacks dizendo apenas “bom trabalho”, o que teria feito com que tivessem passados mais noites acordados e ralado mais para escalar alturas ainda mais vertiginosas do que as já alcançadas? Onde estaríamos se esses indivíduos não se submetessem ao sacrifício intra e interpessoal para se tornarem gigantes? Afinal, o que vale mais a pena: submeter uma vida ao escrutínio da ultrapassagem de limites e causar evidente impacto na espécie humana, ou fazer uma vida pacata onde seu nome eventualmente será relegado ao esquecimento?

Quando a bateria de Andrew (Miles Teller) mancha-se do sangue de sua mão, não mais do que uma ferramenta para sua Arte, enquanto o rapaz se torna cada vez mais talentoso, capaz de causar taquicardia àqueles que escutam seus solos, as questões acima elucidadas começam a passear pela cabeça do espectador.

Andrew sonha em se tornar um dos maiores bateristas de jazz do seu tempo, e seu quarto pequeno com diversos pôsteres e CDs espalhados são evidência desse desejo, que leva o rapaz a se dedicar a um dos mais prestigiados conservatórios dos EUA, conseguindo ainda o direito de estudar com o temido/admirado professor Terence Fletcher (J.K. Simmons), um sujeito que, determinado a extrair o melhor dos seus alunos através dos instrumentos, adota métodos de ensino ousados que não raro despencam para a tortura psicológica.

O que talvez seja o que Andrew acredite precisar. Seu instrumento, sua Arte, não é apenas um passatempo ou um hobbie, mas objeto de seu mais profundo amor, respeito e temor, algo que o diretor/roteirista Damien Chazelle expressa através de um quadro contra-plonge (visão de baixo para cima) onde a bateria parece se erguer como uma montanha assustadora. Andrew parece submetido à pressão de se exceder, e o modo como a bateria parece dominar sua vida em todos os âmbitos é eficientemente abarcado por Chazelle quando inicia seu longa com a tela completamente preta, antes de vermos o título, enquanto escutamos um solo de bateria. Ou seja, estamos deixando nosso universo para adentrar em um onde a música preenche todos os espaços vazios.

Submetido a essa pressão, Andrew evidentemente demonstra-se um sujeito introspectivo, com olhos grudados no chão, mas que parece ressentir a falta do contato humano que permeia a vida de outros, algo que Chazelle explora com planos precisos em sutis trocas de carinhos entre namorados ou numa conversa animada entre amigos, ambos aspectos do cotidiano que Andrew vê de uma perspectiva distanciada. Ainda, o jovem enfrenta a habitual pressão da família acerca da segurança financeira que sua linha de trabalho pode lhe oferecer, o que não contribui para que o rapaz se abra mais. O excepcional Miles Teller (que, juntamente por seu papel no belo The Spetacular Now¸ parece estabelecer-se como um dos mais notáveis talentos atuais) adota o minimalismo de gestos e olhares, além de pequenos sorrisos diante de alguns sucessos, que expressam desejos, dúvidas e medos de Andrew de forma sutil, condizente com sua natureza introspectiva.

A mudança de tom no trabalho de Teller ao longo do desenvolvimento do arco dramático do personagem demonstra o tamanho de sua competência. Submetido às torturas de Fletcher, Andrew vai passando de mero sonhador a lobo faminto em busca da perfeição, se desgastando psicologicamente a ponto de assumir posturas violentas consigo e com terceiros, abrindo mão de interações humanas valiosas para se dedicar por completo a seu aperfeiçoamento musical, o que Teller acompanha com uma gradual intensidade que vai emprestando aos gestos e à voz de Andrew. A todo momento torcemos para o sucesso do protagonista, muito devido à seu cuidadoso desenvolvimento no início do filme, mas ainda não deixamos de chocar com as facetas nada inocentes que vai revelando de forma cada vez mais brutal. Tal complexidade, que o torna mais real, visceral, equilibra-se belamente com as novas contingências no ambiente de Andrew, e Teller acompanha, qual um mestre, todas as novas exigências de adaptação do rapaz, criando um quadro psicológico tão fascinante e bem construindo, que é parte crucial da força do clímax do filme.

Já J.K. Simmons, por sua vez, tem a força de um desastre natural em sua interpretação de Fletcher. Surgindo pela primeira vez em cena envolvido em sombras, com sua habitual indumentária preta, o homem já é definido em sua natureza inescrutável, e se torna uma criatura com ares quase sobrenaturais na reação que parece extrair dos pupilos. O cara entra numa sala escancarando a porta, numa chegada dramática que muito evidencia sobre como ele mesmo se vê. E a brutalidade com que trata seus pupilos varia de forma fascinante nas respostas que obtém de nós (espectadores), hora conseguindo fazer rir com o absurdo de seu comportamento, e hora causando indignação no tratamento desumano que despende aos alunos. De qualquer forma, o homem nunca é menos do que aterrorizante.

Sujeito sempre misterioso e ambíguo, Fletcher dribla nossa percepção de que age da forma que age puramente por amor à música quando toma atitudes mesquinhas de vingança ou simplesmente age como quer. Ao mesmo tempo, dribla-nos de novo ao demonstrar uma insuspeita sensibilidade em vários momentos (grande ponto a Simmons), chegando a marejar os olhos quando fala sobre um ex-aluno que morreu ou ao escutar uma composição impecável.

A ambiguidade das reações que Fletcher passa a provocar no espectador é, aliás, o motor para as maiores questões elucidadas por Chazelle em seu roteiro. Embora indubitavelmente nos horrorizemos com sua brutalidade, e nas diversas formas de tortura psicológica aos alunos, que inclui utilizar pontos frágeis da história de vida dos rapazes para assim atingi-los de forma mais dolorosa, é surpreendente que quando as razões por trás de seu comportamento são elucidadas possamos entrever alguma racionalidade por trás de sua atitude, de acreditar que, levando os alunos a limites inimagináveis do desgaste, do sacrifício, possa extrair o melhor de cada, algo que muitos de seus alunos parecem compreender, já que ser seu aluno é sentido como um grande privilégio.

Explico: o sacrifício pessoal parece regra no que diz respeito aos grandes nomes da história da Humanidade, e uma das coisas mais atraentes sobre a vida desses sujeitos é que dificilmente conseguimos nos visualizar tomando rumos ou aceitando sacrifícios tão absurdos em prol de uma vida dedicada a algo que ultrapassa sua diminuta existência nesse planeta. Se aceitassem apenas o “bom”, se não fossem empurrados até seus limites, talvez não alcançassem o brilhantismo inovador que os destacam. Mas, numa questão que o próprio Andrew propõem, até onde vale a pena morrer pobre e alcoólatra, aos 35 anos de idade, e ainda ter pessoas, décadas depois, falando com admiração sobre você mesmo que nunca tenham conhecido-o em vida, ou morrer aos 90 rico mas não deixando marca nenhuma na espécie humana?

Mas quando se trata de música, a questão se complica ainda mais, e Chazelle tem a maturidade de explorá-la. Muito do que diz respeito à música é subjetivo, e assim, sob quais critérios Fletcher realmente avalia o sucesso ou a mediocridade de um aluno? E é evidente que muitas vezes o seu estado de humor afeta sua opnião, enquanto em outras ele realmente parece possuir perfeito e racional domínio de julgamento. Aonde a linha entre a avaliação objetiva e subjetiva é traçada? Uma questão importante se observarmos a influência que seu julgamento tem sobre a vida de seus alunos. E além disso, o próprio jazz tem em seu cerne um inegável elemento de improviso, que dificulta ainda mais uma análise objetiva.

Com uma direção lindamente pragmática, Chazelle não se delonga com informações excessivas e consegue concentrar-se no desenvolvimento de seus personagens e da narrativa de forma perfeitamente fluída. Ao mesmo tempo em que concentra-se, como já comentado, em planos precisos para seus objetivos, o diretor e o montador Tom Cross constroem sequências absolutamente de tirar o fôlego envolvendo ensaios ou shows, com cortes rápidos e elegantes em bocas, instrumentos, olhares, suor, sangue e mãos, além de impecáveis travellings que garantem intensa energia ao viajar rapidamente pelo ambiente e seus músicos. Esses elementos são, também, alguns dos responsáveis por um clímax que surge...sublime.

Explosivo no embate psicológico que Andrew e Fletcher acabam por desenvolver, Whiplash surpreende ao ser uma experiência às vezes tão frenética quanto um bom filme de ação, mesmo que esteja tratando de música, e nunca esqueça de suas maiores ambições narrativas. Um esforço talvez tão orgástico quanto o próprio jazz.

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