quarta-feira, 15 de janeiro de 2014



Análise:

Fruitvale Station – A Última Parada (Fruitvale Station / 2013 / EUA) dir. Ryan Coogler

por Lucas Wagner

No dia 1º de janeiro de 2009, não muito depois da virada do ano, o jovem Oscar Grand, de 22 anos, pai de família, foi morto pela polícia numa demonstração de injustificável violência. Incidente, digamos, infelizmente muito comum, já que não raro as autoridades se mostram mais brutas do que aqueles contra os quais deveriam “lutar”. Assim, o diferencial deste Fruitvale Station – A Última Parada é pegar esse evento “comum” e fazer com que verdadeiramente nos indignemos com a situação, já que passa a maior parte da projeção procurando desenvolver a personalidade de Oscar e sua relação com amigos e familiares, levando-nos a conhecer e nos importar com aquelas pessoas e que soframos com sua tragédia.

Oscar é retratado como um indivíduo batalhador, vivendo em um ambiente cujos frutos das tentativas de levar uma vida decente e longe da criminalidade raramente pagam o esforço. Negro e pobre, o protagonista já foi preso algumas vezes (provavelmente por posse/tráfico de drogas), o que o afasta de sua filhinha e de sua mulher, tornando a convivência familiar cada vez mais problemática, principalmente pela tendência a ser explosivo que o jovem tinha, não aceitando levar desaforos e se entregando a estados de fúria que o levam a agredir policiais (quando ficam em seu caminho) ou ficar encarando um homem que ofendeu a ele e sua mãe, se segurando para não pular no cara, e consequentemente ignorando a mãe que está na sua frente.

O que não impedia que o rapaz fosse corroído pela culpa, sendo capaz de atos admiráveis como esconder um saco com maconha antes de sua filha entrar no quarto e, mesmo sem dinheiro, fazer de tudo para agradar a mãe em seu aniversário (e é bonito que, ao perceber se passar da 00h, prontamente mande um sms parabenizando sua progenitora). Assim, Oscar pode até se envergonhar por seu estado deplorável e mentir sobre suas verdadeiras condições, mas é um sujeito admirável e tridimensional, algo que o roteiro quase estraga ao apostar numa visão por vezes açucarada do jovem, incluindo sequências tolas como a que quase chora por um cachorro ferido. E se o protagonista funciona apesar desse tratamento, muito se deve à performance de Michael B. Jordan, cujo carisma e dedicação permitem um peso dramático ideal à Oscar e seu desejo de mudança.

Mas o mais interessante em Fruitvale Station é o modo com que o diretor/roteirista Ryan Coogler consegue enxergar as pessoas envolvidas no réveillon de 2008 para 2009. Sem se importar com opção sexual, cor de pele ou status social, todos aqueles indivíduos são engolfados por um senso de união que surge principalmente em eventos festivos como esse. Perto da 00h, presos em um metrô, essas pessoas se unem em uma euforia admirável e, mesmo quando Oscar identifica um sujeito mal encarado (possivelmente de seu passado de crimes), a tensão que surge quando esse remexe em sua mochila é prontamente apagada quando revela duas pequenas caixas de som que vai permitir que todos os passageiros curtam uma música. Sentimento de aconchego que o próprio espectador sente, embora ainda esteja tenso pela abordagem que o diretor usou de iniciar o longa com o vídeo de arquivo do crime e apostar numa câmera inquieta o tempo todo.

Esse senso de humanidade, fora o estágio em que nos encontramos no conhecimento de Oscar e seu relacionamento com a mulher, permitem que a agressividade dos policiais seja ainda mais deplorável, já que a culpa do evento que chamou a atenção da polícia provavelmente caiu nos ombros de Oscar e seus amigos apenas por sua cor de pele (mas é admirável que o roteiro humanize um dos policiais quando este se assusta ao perceber a dimensão dos atos dele mesmo e de seus colegas). Desse modo, o asco provocado pela atitude dos policiais é aterrador, e prova disso é que, se o longa abre com a cena de arquivo real do crime, a cena “fictícia”, filmada para esse filme, causa muito mais impacto e revolta, por agora termos uma visão mais tridimensional do ocorrido.

Correndo um pequeno risco de fracassar devido à sua abordagem levemente melodramática (sequências como Oscar e sua filha correndo em câmera lenta são lamentáveis), Fruitvale Station – A Última Parada ainda assim consegue se sustentar como um belo filme já que nos tira de nossa posição de espectadores reclamões que adoram criticar situações que pouco entendem, para nos dar a oportunidade de, conhecendo a personalidade da vítima, nos indignarmos com propriedade diante do absurdo de violência atual promovido por autoridades.

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